A briga Lula-Milei pode desmantelar o Mercosul por dentro
Divergências ideológicas entre Brasil e Argentina ameaçam integração regional e afetam cadeia produtiva de ambos os países
A tensão política entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o argentino Javier Milei, que começou como disputa ideológica, agora coloca em risco o funcionamento prático do Mercosul. Se escalarem para sanções tarifárias ou bloqueio de acordos, o prejuízo será mútuo e imediato.
O conflito entre Brasil e Argentina deixou de ser apenas retórica política. Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, alerta que se a briga bilateral evoluir para sanções comerciais ou bloqueio de acordos no âmbito do Mercosul, ambos os países pagarão um preço alto, especialmente os setores industriais que dependem das cadeias produtivas regionais. Não é exagero: Brasil e Argentina movimentaram US$ 13,75 bilhões em importações e exportações apenas no primeiro semestre de 2026, sendo o principal parceiro comercial um do outro.
A polarização já deixa marcas reais na instituição. O governo argentino ainda não travou acordos comerciais na prática, mas Milei já impediu que declarações conjuntas de cúpula alcançassem consenso entre os membros. O caso mais claro: em 2024, a delegação argentina rejeitou a declaração final de uma cúpula no Paraguai porque se opunha a trechos sobre a Agenda 2030 da ONU, diversidade e políticas climáticas. Não é desentendimento técnico — é disputa por narrativa dentro da instituição.
Os dois líderes têm visões antagônicas sobre o bloco. Lula vê o Mercosul como uma armadura que protege seus membros das disputas comerciais globais. Milei, alinhado à agenda ideológica liberal e crítico de organismos multilaterais, resiste ao modelo de integração profunda que o Brasil defende. Essa divergência não é apenas filosófica; ela impacta decisões concretas que afetam indústrias, agricultores e trabalhadores dos dois lados.
Para o Paraná, que mantém relações comerciais fortes com a Argentina — especialmente em setores como grãos, agroindústria e energia — uma escalação do conflito representaria risco real. Se as cadeias produtivas regionais forem interrompidas por retalhos tarifários ou bloqueios políticos, empresas paranaenses que operam com matérias-primas ou insumos argentinos enfrentariam custos adicionais e incerteza. O estado não pode ignorar essa ameaça.
A questão agora é se a pragmática comercial prevalecerá sobre as posições ideológicas. Ambos os países têm muito a perder. Mas se Milei continuar testando os limites institucionais do bloco — como já está fazendo — a integração que levou décadas para ser construída pode entrar em colapso, não por decreto, mas por erosão política gradual.
Com informações da Gazeta do Povo.