Brasil entre EUA e China: o xadrez da globalização fraturada
Mercosul enfraquecido por protecionismo americano enquanto Argentina flerta com desglobalização bilateral
A retirada seletiva dos Estados Unidos da globalização e a ascensão da China como potência comercial redefinem as regras do jogo para o Brasil. No meio do fogo cruzado, o Mercosul — bloco que deveria ser escudo — corre risco de ser desmontado se a região optar por acordos bilaterais.
A globalização não morreu, mas mudou de roupa. Enquanto proclamam seu fim, as grandes potências reorganizam as cadeias produtivas segundo critérios geopolíticos, não econômicos. Os EUA aplicam tarifas seletivas, controlam tecnologia, restringem investimentos. A China avança em espaços que Washington abandona. Nesse cenário, países médios como o Brasil ficam presos em um dilema: manter a aposta na multilateralidade ou escolher um lado.
O problema imediato tem nome: a Argentina de Milei assinou acordo bilateral com os EUA fora do Mercosul, quebrando princípios do bloco. Isso não é simples diplomacia — é um sinal de que a região pode se fragmentar. Se o Brasil seguisse esse caminho, perderia o poder de barganha coletiva justamente quando mais precisava dele. Um bloco sul-americano enfraquecido é presa fácil para pressões externas.
Há dois caminhos à frente. No primeiro, a economia mundial se reorganiza em blocos rígidos, esferas de influência fechadas. O Brasil seria forçado a escolher entre Washington e Pequim — e essa escolha teria custos comerciais, tecnológicos e políticos brutais. No segundo, mantém-se alguma pluralidade nas relações, desde que o Mercosul permaneça coeso como instrumento de negociação.
A eleição brasileira importa menos do que parece. Uma reeleição de Lula manteria a defesa da união aduaneira, mas em ambiente cada vez mais hostil. Uma vitória oposta poderia levar à desintegração do bloco em acordos bilaterais. Nos dois casos, o cenário regional piora — a diferença é apenas no ritmo do deterioramento.
Para o Paraná, isso toca direto no bolso. O estado vive de exportações — grãos, carne, fertilizantes. Mercadoria que circula por acordos comerciais. Um Mercosul fraco significa menos poder para negociar acesso aos mercados americano e asiático, reduzindo margem de manobra para produtores paranaenses em um mundo cada vez mais fragmentado.
Com informações da Folha de S.Paulo.