BRICS mantém contradição: fala em transição energética, mas aposta em petróleo e carvão
Na cúpula de Nova Délhi, grupo de países emergentes reforça discurso climático, mas continua investindo em combustíveis fósseis
A 18ª cúpula do BRICS, realizada na Índia em setembro, evidenciou uma tensão central que marca a geopolítica energética: o bloco de países emergentes reconhece a urgência da transição para energias limpas, mas segue apostando pesadamente em petróleo e carvão como pilares de sua segurança energética.
O encontro em Nova Délhi reuniu líderes de cinco das maiores economias do mundo em desenvolvimento — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — em um contexto de instabilidade internacional aguda. A ausência do presidente Lula, que priorizou a campanha eleitoral no Brasil, marcou presença simbólica: o país foi representado pelo chanceler Mauro Vieira. Já Xi Jinping e Vladimir Putin, que não compareceram à cúpula do Rio de Janeiro no ano anterior, marcaram presença em Nova Délhi, sinalizando a importância geopolítica do encontro.
A contradição não é nova, mas fica cada vez mais evidente. O BRICS reforça publicamente a necessidade urgente da transição energética — tema obrigatório em qualquer reunião multilateral de relevância. Simultaneamente, os países que compõem o bloco continuam expandindo produção e consumo de combustíveis fósseis, especialmente carvão. A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que a demanda global por carvão baterá recordes até 2027, e as economias do BRICS serão protagonistas nesse cenário.
Para o Paraná, o impacto dessa dinâmica é indireto, mas real. O estado é exportador de grãos e fertilizantes que dependem de energia barata — seja de combustíveis fósseis ou renováveis — para sua competitividade global. Um BRICS que mantém energia cara por atraso na transição afeta custos de produção. Por outro lado, a demora na descarbonização pode fechar mercados europeus e asiáticos cada vez mais exigentes em pegada de carbono. A contradição do bloco reverbera na porta do agronegócio paranaense.
O que explica essa postura dupla? Segurança energética em tempos de geopolítica instável. Com guerras em curso e sanções econômicas, países emergentes temem depender de fontes de energia controladas por potências externas. Manter carvão e petróleo domésticos é visto como autonomia estratégica — mesmo que isso conflite com metas climáticas. É a velha equação: crescimento econômico versus responsabilidade ambiental, ainda não resolvida no nível das grandes potências emergentes.
A cúpula do BRICS deixa claro que o discurso sobre transição energética está consolidado no repertório diplomático global. Mas a ação prática segue aquém. O bloco reconhece o problema, faz promessas públicas, mas não abre mão dos combustíveis fósseis que financiam seu modelo de desenvolvimento. É a distância entre o que se diz e o que se faz — um abismo que custa caro para o clima e, no longo prazo, para economias como a do Paraná que apostam em mercados cada vez mais seletivos.
Com informações de climainfo.org.br