Crítica que respira literatura
Silas Correia Leite reúne duas décadas de ensaios sobre autores brasileiros e clássicos mundiais
Um livro que atravessa gerações de escritores — de Graciliano Ramos a poetas ainda em busca de reconhecimento — mostra como a leitura atenta continua sendo o melhor antídoto contra o esquecimento
Há algo de urgente em reunir críticas espalhadas por jornais, revistas e sites de duas décadas inteiras. Silas Correia Leite fez isso. Chamou de Ensaios Gerais, publicado pela Caravana Grupo Editorial, e organizou suas análises em torno de um fio condutor simples e potente: a literatura brasileira que importa, seja aquela já consagrada, seja a que ainda bate às portas da história.
O livro respira fundo diante de Angústia, de Graciliano Ramos, e Memória de minhas putas tristes, de García Márquez. Depois, em sua terceira parte — a mais densa — debruça-se sobre Drummond, Jorge Amado, Ferreira Gullar. Inclui ainda resenhas do clássico Escritores Brasileiros do Século XX, da professora Nelly Novaes Coelho. Tudo isso sem abandonar vozes mais recentes, como o poeta cubatense Marcelo Ariel, cujos versos em Tratado de anjos afogados ecoam a tragédia de Vila Socó.
O que impressiona é a generosidade do olhar. Leite não hierarquiza por fama ou antiguidade. A crítica dele é um espaço onde Euclides da Cunha e um poeta jovem podem ocupar o mesmo chão, porque o que importa é como a palavra foi trabalhada, como o sentido foi construído. Quando comenta Peregrinações amazônicas, do professor Fábio Lucas, confessa ter saído da leitura como quem termina uma pós-graduação. Não é exagero retórico — é humildade diante da obra bem feita.
Em tempos de resenhas apressadas e opinião sem leitura, há algo de raro nesse trabalho paciente, nessas duas décadas transformadas em compêndio. É um livro que diz ao leitor: sente-se, leia de verdade, e depois fale. A literatura responde quem a merece.
Com informações de caravanagrupoeditorial.com (https://caravanagrupoeditorial.com/pt/resenha-critica-ensaios-gerais).