Paraná · 30 de setembro de 2026
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Coluna de Opinião

O acordo que pode congelar a piscicultura brasileira

Importações vietnamitas de tilápia ameaçam crescimento de R$ 9,5 bilhões em produção anual

Rafael Antunes ·3 min
O acordo que pode congelar a piscicultura brasileira
Foto: tribunapr.com.br

O Brasil fechou um acordo comercial com o Vietnã em julho de 2025 que troca acesso ao mercado de pescados por autorização para exportar carne bovina. O problema: a tilápia vietnamita já captura 10% da produção nacional, e o pacto pode zerar o crescimento do setor que crescia 10% ao ano — justamente

O contexto é simples, mas complicado. O governo federal assinou em julho de 2025, durante a Cúpula Ampliada do BRICS no Rio, um pacto com o Vietnã que abre as comportas para pescados asiáticos entrarem no Brasil sem as barreiras anteriores. Em troca, o Vietnã autoriza a importação de carne bovina brasileira — um negócio que faz sentido para o agronegócio exportador, mas deixa um setor inteiro desprotegido: a piscicultura de tilápia.

A tilápia é big business por aqui. O setor acumula mais de R$ 6 bilhões em investimentos e gera R$ 9,5 bilhões em produção anual. Durante 12 anos, a indústria cresceu em média 10% ao ano — um ritmo sólido. Mas agora o Vietnã, aproveitando justamente esse crescimento brasileiro, começa a inundar o mercado com tilápia importada a preços mais competitivos. A JBS, maior empresa de proteína animal do mundo, já fechou contrato para trazer 700 toneladas do peixe asiático, que chegaram ao país em novembro de 2025. As importações vietnamitas já representam 10% da produção nacional.

Há, porém, uma bomba relógio mais grave: existe um acordo internacional assinado por 187 países na COP 15 que prevê controle ou erradicação de espécies invasoras até 2030. Se a tilápia for classificada como invasora — e há sinais de que pode ser —, o segmento brasileiro pode desaparecer. Grandes grupos econômicos já não financiam nem comercializam espécies invasoras por causa de protocolos de sustentabilidade ESG. É um duplo aperto: importação crescente mais risco regulatório existencial.

O Paraná tem participação relevante nessa história. O estado é um dos principais produtores de tilápia do país, e a piscicultura está enraizada em comunidades rurais paranaenses com empregos, infraestrutura e investimentos locais. Se o crescimento for zerado em 2026, como prevê a Associação Brasileira da Piscicultura, haverá impacto direto em produtores, frigoríficos regionais e na cadeia de abastecimento do estado.

O que significa tudo isso? Um setor que investiu pesado, crescia consistentemente e alimenta milhares de pessoas — produtores, trabalhadores, comerciantes — está sendo exposto a concorrência sem proteção, justamente quando a regulação internacional pode virar uma tesoura que o corta pela outra ponta. O pacto com o Vietnã fez sentido para a exportação de bife, mas deixou a tilápia brasileira vulnerável em dois flancos simultâneos. O governo terá de escolher: renegocia, protege ou aceita que esse segmento encolha.

Com informações de www.tribunapr.com.br (fonte no link).

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