Opinião
A fronteira não é violenta — é abandonada, e isso é diferente
Por Claudia Benítez
·
·
4 min de leitura
Toda vez que sai uma operação policial na Tríplice Fronteira, o noticiário nacional reaviva o velho clichê: "a fronteira mais violenta da América Latina". A frase é boa para manchete, ruim para política pública. E não resiste a 30 segundos de checagem.
Os dados são públicos. Em 2025, Foz do Iguaçu registrou 14,2 homicídios por 100 mil habitantes. Curitiba registrou 22,8. Ciudad del Este, 18,1 — Asunción, 26,4. Puerto Iguazú, 9,8 — Posadas, 14,5. As três cidades da Tríplice Fronteira são mais seguras que as capitais dos seus respectivos estados/províncias. Esta é a foto que não cabe na manchete.
O problema real da fronteira não é a violência urbana. É a ausência de Estado nas zonas rurais — as áreas de plantio do leste paraguaio, os corredores fluviais do Paraná, as estradas vicinais entre Foz e Guaíra. Lá não tem polícia, não tem fiscal, não tem juiz, não tem promotor. Quem domina essas áreas são grupos armados que controlam o contrabando de armas, drogas e cigarros — e cobram pedágio de quem produz no campo. Esse é o crime organizado real da fronteira. E ele não está nas cidades.
Nos últimos 10 anos, nenhuma operação federal — brasileira, paraguaia ou argentina — endereçou esse problema. As operações são todas urbanas, midiáticas, fotogênicas. Apreendem celular, fuzil de plástico e dinheiro vivo na frente de hotel. Não desmontam a estrutura econômica que sustenta o crime, que está no campo, longe das câmeras.
A solução é cara, lenta, sem foto bonita. Posto da Polícia Federal a cada 50 km de fronteira rural. Justiça itinerante. Fiscalização ambiental conjunta dos três países. Programa de regularização fundiária. Subsídio à pequena produção. Nada disso vende manchete — mas é o que muda o jogo.
Enquanto continuarmos chamando a Tríplice Fronteira de "violenta" em vez de "abandonada", as soluções vão continuar sendo as erradas. Diagnóstico errado, remédio errado.