PY
Opinião
O guarani forte é só vento — e o vento está prestes a virar
Por María Verónica Aguilera
·
·
4 min de leitura
O guarani fechou esta semana cotado a 7.180 por dólar — o melhor patamar desde dezembro de 2025. Em Asunción, o ministro da Economia comemorou. Nas mesas de operação dos bancos privados, ninguém comemorou nada.
Há três motivos para essa cautela. Primeiro: a apreciação do guarani não vem de fundamentos econômicos. Vem de uma janela cíclica de entrada de dólares da safra de soja, que se fecha em julho. A partir daí, o fluxo se inverte. Segundo: o Banco Central do Paraguai (BCP) está sustentando o câmbio artificialmente, queimando reservas em volume não divulgado. Quem acompanha os relatórios semanais do FMI percebe que as reservas líquidas caíram US$ 380 milhões em maio. Em junho, deve cair mais.
Terceiro, e mais grave: a inflação importada do Brasil. O real perdeu 4% contra o dólar no mesmo período em que o guarani ganhou 6%. Isso significa que produtos brasileiros estão entrando no Paraguai a preços relativos 10% menores. Para o consumidor de Ciudad del Este, é uma boa notícia. Para a indústria nacional paraguaia, é uma sentença. A Federação de Indústrias do Paraguai já registra três fechamentos de fábricas têxteis em maio.
O que está em jogo é o equilíbrio entre câmbio e produção. Um guarani forte é bom para quem importa — e ruim para quem produz. O Paraguai vive uma fase de industrialização tardia, com a maquila brasileira instalando fábricas no leste do país. Se o câmbio continuar valorizado, esses investimentos perdem o sentido econômico que os trouxe.
Minha previsão: o BCP vai parar de defender o câmbio até o fim de julho. Quando isso acontecer, o guarani devolve metade do ganho em duas semanas. Quem importa do Brasil deveria estar antecipando pedidos. Quem exporta soja deveria estar travando câmbio nos níveis atuais. O vento vai virar — só não sabemos exatamente em que dia.