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BR Opinião ·
Coluna de Opinião

A Biblioteca que Não Cabe na Prateleira

Quando clássicos da literatura viram ferramenta de diálogo social

Cora Sampaio ·2 min
A Biblioteca que Não Cabe na Prateleira
Foto: niase.ufscar.br

Um núcleo de pesquisa da UFSCar reuniu as grandes obras da humanidade não para decorar museu, mas para conversar sobre a vida. Rosa, Dostoievski, García Márquez e tantos outros ganham nova função: provocar tertúlias onde a literatura encontra gente de carne e osso.

Existe algo inteligente em pegar Grande Sertão: veredas e colocar na mão de quem quer entender a própria solidão. Ou em ler Crime e Castigo quando a culpa aperta no peito. A Universidade Federal de São Carlos percebeu isso e criou um projeto que não trata clássicos como relíquias de vidro — trata como ferramenta viva.

No Núcleo de Investigação e Ação Social e Educativa da UFSCar, uma lista impressionante de obras — Rosa, Cervantes, Tolstói, Kafka, Proust, García Márquez — ganhou novo endereço: as tertúlias dialógicas. Não é seminário formal. É gente lendo junto, conversando, descobrindo que Dostoievski estava falando sobre o próprio vizinho, que o Quixote é sobre teimosias que reconhecemos em casa.

A escolha das obras não é acaso. São livros que atravessaram séculos porque fizeram perguntas que a gente ainda faz. De quanta terra precisa o homem? Tolstói perguntou em apenas uma página, e a resposta continua espinhosa. Memórias Póstumas de Brás Cubas ri da vida com uma amargura que qualquer brasileiro reconhece na própria rua. Gabriel García Márquez escreve sobre a morte desde antes dela chegar, e cada leitor sente a mão gelada.

A literatura clássica deixa de ser aquele peso de escola para virar o que sempre foi: conversação entre vivos e mortos, ponte onde as dúvidas antigas ecoam nas novas. E talvez aí resida o melhor da ideia — não canonizar a obra, mas canonizar seu uso. Devolver aos clássicos a função original: serem companhia.

Com informações de www.niase.ufscar.br (fonte no link).

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