BRICS enfrenta o dilema de unir rivais numa ordem internacional fragmentada
Bloco consegue avançar apesar das tensões internas, mas futuro depende de capacidade de conciliação entre membros com interesses divergentes
O BRICS reuniu-se em Nova Délhi em meio a conflitos internacionais que dividem seus próprios membros. A questão central: como manter coesão quando Rússia, Irã e Arábia Saudita estão em lados opostos de duas das maiores crises globais?
Os BRICS nascem de um incômodo compartilhado. Assim como o Movimento dos Não Alinhados enfrentou no século passado, o bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul questiona uma ordem internacional onde não se veem adequadamente representados – e em um mundo onde os Estados Unidos travam guerras praticamente todos os anos desde o fim da Guerra Fria. É um diagnóstico claro do problema, mas que esconde uma realidade bem mais complicada dentro do próprio grupo.
A cúpula de Nova Délhi evidenciou essa tensão de forma cristalina. Três dos cinco membros estão diretamente envolvidos nos dois maiores conflitos do momento: a guerra na Ucrânia (com a Rússia como agressor) e o caos do Oriente Médio (onde Irã e Arábia Saudita ocupam trincheiras opostas). Não é detalhe menor. Para chegar a uma declaração final que todos pudessem assinar, o bloco precisou de acrobacias diplomáticas. O documento final, com 45 páginas e 140 pontos, evita referências explícitas aos conflitos, mas tece considerações sobre prevenção sem nomear culpados – uma fórmula que satisfaz a Rússia e os que exigem seu recuo, simultaneamente.
O desafio real é este: há alguma solução negociada possível para esses conflitos? O politólogo John Mearsheimer é cético. Segundo sua análise, a natureza das reivindicações é tão incompatível – especialmente a insistência russa em anexar territórios ucranianos, que Kiev rejeita – que um acordo viável parece improvável por enquanto. É o tipo de impasse que paralisa blocos de países, independentemente de seus objetivos gerais.
Apesar disso, há quem sustente que os BRICS não perderam o rumo. Evandro Menezes de Carvalho, professor de Direito Internacional da Universidade Federal Fluminense, avalia que a cúpula de Nova Délhi confirmou que o bloco mantém seus objetivos e capacidade de ação. É verdade que o BRICS reúne as duas maiores populações mundiais (China e Índia), o país mais extenso (Rússia) e as maiores economias da América Latina e da África (Brasil e África do Sul). Esse peso demográfico e econômico não desaparece só porque há desacordos.
O Paraná, como grande produtor de grãos e dependente de câmbio e demanda externos, observa esse movimento com interesse real. China e Índia são destinos centrais para a soja paranaense; a estabilidade das relações comerciais, mesmo com tensões políticas, importa diretamente no preço de nossos produtos. Blocos fragmentados, porém coesos economicamente, podem ser mais previsíveis do que o caos – e o Brasil, ainda que membro dos BRICS, tem razões próprias para evitar radicalizações.
A verdade é que os BRICS continuam caminhando, mas cuidadosamente. Nem desistem de seus objetivos de reordenar o peso geopolítico global, nem conseguem resolver as contradições internas que os atravessam. No curto prazo, essa é a realidade: um bloco que negocia consigo mesmo enquanto tenta negociar com o resto do mundo.
Com informações de www.cig.gal (fonte no link).