Terremoto na Venezuela: sobreviventes relatam a luta sob os escombros enquanto os mortos passam de 3.300
Doze dias após o tremor duplo de 24 de junho — o mais forte desde 1900 —, resgates como o do vigia Hernán Gil, tirado com vida após 8 dias sob 140 toneladas de concreto, marcam uma tragédia com mais de 16 mil feridos e milhares de desabrigados.
Os dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 que atingiram o norte da Venezuela em 24 de junho deixaram mais de 3.300 mortos e dezenas de milhares de desaparecidos. Doze dias depois, sobreviventes e famílias relatam o drama sob os escombros, enquanto o país migra do resgate para a reconstrução.
Doze dias depois do terremoto duplo que atingiu o norte da Venezuela em 24 de junho, o país ainda conta seus mortos e procura por milhares de desaparecidos. Os dois tremores, de magnitudes 7,2 e 7,5, ocorreram com apenas 39 segundos de diferença, por volta das 18h05 (horário local), com epicentro no município de Veroes, no estado de Yaracuy, a cerca de 160 quilômetros a oeste de Caracas. Foram os mais fortes a atingir a Venezuela desde 1900.
Até 5 de julho, o governo venezuelano confirmava mais de 3.300 mortes e cerca de 16,7 mil feridos — número que seguia em revisão —, além de dezenas de milhares de pessoas ainda listadas como desaparecidas. Segundo as autoridades, 6.462 pessoas foram resgatadas com vida e mais de 17 mil perderam suas casas. Análises de imagens de satélite estimaram perto de 59 mil edificações danificadas ou destruídas; La Guaira, no litoral, e bairros de Caracas como Los Palos Grandes e Altamira estão entre os pontos mais castigados.
No meio da destruição, alguns resgates deram sobrevida à esperança. O caso que mais mobilizou a Venezuela foi o do vigia Hernán Gil, de 43 anos, retirado com vida oito dias após o tremor, do subsolo de um edifício de sete andares que desabou em Catia La Mar, no litoral de La Guaira. Equipes fizeram contato com ele por volta do quarto dia e passaram a alimentá-lo com uma seringa, enquanto trabalhavam para removê-lo de cerca de 140 toneladas de concreto.
A esposa, Gusbimar González, resumiu a angústia da espera à agência Associated Press: “Quando soube que ele estava vivo, vi um raio de luz na escuridão.” Diante da operação, que reuniu bombeiros do Chile e equipes dos Estados Unidos, Portugal, México, Costa Rica, El Salvador e Venezuela, ela completou: “É verdadeiramente um milagre. É a primeira vez que vejo tantos países se unirem para salvar uma única pessoa.” O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, comemorou nas redes: “Finalmente conseguimos resgatar Hernán!”
Não foi o único desfecho de esperança. A AP registrou o resgate do bebê Juan David, de apenas 18 dias de vida, e de sua mãe, Dayana Patiño, tirados dos escombros após 32 horas em La Guaira. Em Caraballeda, estudantes de medicina da Universidade Central da Venezuela juntaram-se aos resgates e ajudaram a libertar um homem preso sob as vigas de um restaurante que ruiu. Entre as equipes caninas, a cadela farejadora Tsunami — creditada por localizar 25 sobreviventes — foi aposentada após a missão.
Como estão agora. Com o passar dos dias, a operação foi migrando de resgate para reconstrução. Mais de 10,7 mil pessoas seguiam abrigadas em 79 acampamentos temporários; só em La Guaira, o estado mais atingido, eram 6.655 desabrigados em 20 abrigos, além de 3.234 em Caracas. O governo mobilizou quase 29,6 mil militares e agentes de segurança e mais de 27 mil voluntários. A ONU estima que até 6,8 milhões de pessoas podem ter sido afetadas e precisam de abrigo, água, saneamento e atendimento de saúde; onze hospitais de campanha internacionais foram montados até o início de julho.
A ajuda externa foi expressiva: mais de 33 países enviaram equipes, somando cerca de 3,6 mil socorristas, e os Estados Unidos anunciaram US$ 150 milhões em auxílio. Ainda assim, com milhares de desaparecidos e as chances de novos resgates diminuindo, cresceu entre as famílias a frustração com o ritmo e a organização do socorro. Órgãos de checagem, como o Poynter, alertaram que parte dos vídeos de destruição que circularam nas redes não era do tremor de 24 de junho — motivo pelo qual esta reportagem se limita a imagens e relatos verificados por agências e organismos oficiais.
Com informações de CBS News, PBS/Associated Press, NPR e ONU News. Dados oficiais atribuídos ao governo venezuelano (5/7/2026).