A escrita afiada de quem lê
Coetzee crítico: quando o romancista Nobel se torna cicerone da literatura mundial
Quarenta e quatro ensaios do sul-africano J.M. Coetzee, publicados entre 2000 e 2017, revelam um crítico que não poupa nem os clássicos — e oferece ao leitor um mapa peculiar da melhor literatura, visto por quem sabe bem como se constrói um romance.
Há algo de desafiador em quem já venceu o Nobel — prêmio que reconhece a criação — dedicar-se a dissecar a obra alheia. Coetzee fez exatamente isso: em vez de revelar seus próprios mecanismos de escrita, escolheu iluminar os de Goethe, García Márquez, Tolstói, Beckett. De Hölderlin a Faulkner, cada um deles passa pelo crivo de um leitor que não separa a fruição estética do escalpelo crítico.
O que surpreende nos dois volumes lançados pela Carambaia — Mecanismos internos e Ensaios recentes — não é só a amplitude: é a recusa da piedade. Coetzee não canoniza; questiona. Aponta "defeitos" em obras aclamadas, porque para ele a literatura é espaço de tensão, não de veneração. Ler seus ensaios é menos ouvir o julgamento de um crítico consagrado e mais conversar com alguém que compreende, na profundidade, como um romance respira, resiste, falha.
Alguns procurarão confissão autobiográfica — como escreve Coetzee, o que ele pensa sobre sua própria ficção. Não a encontrarão aqui. O que há é outra coisa: um romancista usando outros romances como espelho para entender que espécie de animal é a literatura. É trabalho de leitura pura, sem vaidade de autor. E isso, paradoxalmente, diz tudo sobre Coetzee.
Com informações de quatrocincoum.com.br (https://quatrocincoum.com.br/resenhas/literatura/a-literatura-segundo-coetzee).