Drummond entre duas margens
Como um poeta descobriu que a crônica também cabe dentro de um verso
Versiprosa (1967) reúne 102 textos que Drummond publicou em jornais entre 1954 e 1970. Ali, a fronteira entre poesia e prosa desaparece — e o cotidiano ganha lirismo sem deixar de ser notícia.
Há um tipo de escritor que não suporta ficar apenas de um lado da cerca. Carlos Drummond de Andrade era assim. Quando colaborava para o Correio da Manhã, o Jornal do Brasil e a revista Mundo Ilustrado, ele não simplesmente cronista — aquele que regista o dia e pronto. Fazia mais: pegava aquele fato efêmero, aquela pequena coisa do jornal, e a rebendia com a subjetividade de um poeta.
Versiprosa é o nome dessa escolha. O livro, publicado em 1967, traz 102 crônicas escritas em quatorze anos, e nelas a gente vê acontecer algo raro: o lirismo que sobrevive ao factual. Não é prosa que quer ser poesia nem poesia que fingindo ser crônica. É genuinamente ambos. Drummond usa recursos de verso — a concentração de imagem, a música das palavras — para recriar uma notícia, um acontecimento visto nas ruas do Rio. O cotidiano torna-se poético não porque ganhe adjetivos bonitos, mas porque o poeta enxerga nele algo que merecia ser visto.
A gente costuma pensar em gêneros como caixas separadas. Mas Drummond aprendeu cedo que a vida não cabe em caixas. Um dia é notícia de jornal; no outro, vira verso. E talvez seja essa a verdadeira lição de Versiprosa: que o lirismo existe tanto na prosa quanto na poesia, desde que haja olhos atentos e uma caneta honesta para registrar o que foi visto.
Com informações de dialnet.unirioja.es (fonte no link).